Heading

Viajar com o Museu

testemunhos de uma itinerância

2017-04-12
Vista geral da exposição
Vista geral da exposição "Viajar com o Museu" |© João Borges Design
Em janeiro de 2005, o Museu encetou uma viagem ao encontro de públicos que, por razões diversas, estão inibidos de visitar o seu espaço físico no Edifício da Alfândega do Porto. 
Ainda que por pouco tempo, nesses momentos sentimo-nos em liberdade e isso para nós é de extrema importância.
Testemunho de um recluso do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, 2005

A ideia de que cada espaço cultural se valoriza mais com a cooperação dinâmica com outros ficou, assim, posta em prática, otimizando recursos e fazendo chegar mais longe e a mais diversificados públicos a informação sobre os novos equipamentos culturais que o nosso País tem vindo progressivamente a ganhar.
Testemunho de responsável da Biblioteca Municipal de Ovar, 2005

Para algumas das nossas crianças/jovens foi certamente a única oportunidade de conhecer um pouco do Museu, […]. Para outras foi a desmistificação desse espaço. O Museu deixou de ser visto como um espaço sério e distante, e se me permitem utilizar a linguagem dos nossos pequenos doentes “secante”. Esta criação de estratégias de comunicação com o público, neste caso específico com o Hospital, restabelece a ligação à comunidade enquanto partilha de vidas e saberes.
Testemunho de um educador do serviço de pediatria do IPO do Porto, 2005

Para mim senti momentos de alegria. Ajudou-me a passar um bom bocado de tempo e até dei por mim a viajar, como se não estivesse detido.
Testemunho de um recluso do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, 2005

[…] independentemente dos benefícios em termos das competências pessoais e da promoção da autoestima e do autoconceito, as reclusas puderam soltar a imaginação e interagir entre si respeitando as regras dos jogos e o trabalho das colegas e aprenderam a exteriorizar sentimentos de forma controlada.
Testemunho de técnicos do Estabelecimento Prisional Especial de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, 2005

[…] foi com muita satisfação que acolhemos a exposição itinerante “Viajar com o Museu”, que obteve uma grande recetividade entre os nossos utentes e contribuiu para o conhecimento de novas realidades e para minimizar o estigma da doença mental.
Testemunho do Presidente do Conselho de Administração do Hospital Magalhães Lemos, no Porto, 2005

Em janeiro de 2005, o Museu dos Transportes e Comunicações encetou uma viagem ao encontro de públicos que, por razões diversas, estão inibidos de visitar o seu espaço físico no Edifício da Alfândega do Porto. 
Contando com o apoio da Rede Portuguesa de Museus para a sua materialização, o projeto foi desenvolvido em duas vertentes: uma exposição itinerante com uma breve apresentação da oferta expositiva do Museu; um projeto educativo em torno das temáticas do Museu, alicerçado na dinâmica de animadores do Serviço Educativo e socorrendo-se de ferramentas diversas (recriação de personagens como o mecânico Sr. Teixeira e a jornalista Rita Gralha; promoção de oficinas participadas pelo público; dinamização de um jogo da glória alusivo ao Museu e seu acervo, construído especificamente para este efeito).

Ao longo do tempo (e foram mais de três anos), o Museu viajou assim por estabelecimentos prisionais, hospitais, hospitais psiquiátricos, bibliotecas, escolas… num calendário regular, quase ininterrupto, por vezes até com lista de espera. Uma itinerância de proximidade que se assumiu como permanente fonte de aprendizagem, superando em muito os objetivos inicialmente delineados. Em cada local foi apresentada a exposição, montada e desmontada pela equipa do Serviço Educativo do Museu (o que permitiu que desde logo se fizesse um enquadramento do projeto no início e uma avaliação sumária no seu término), numa duração definida caso a caso (maioritariamente de duas semanas), havendo pelo menos um dia de animação interagindo diretamente com os visitantes, um momento previamente agendado e assegurado pelo Serviço Educativo.

A finalidade do projeto era o reforço da vocação pública do Museu e da sua função social. Extravasando os contornos iniciais, o projeto acabou por dar lugar a outros projetos levando mais longe os horizontes da proposta.
Destacamos de entre estes a associação do Museu à constituição de uma oficina de Expressão Dramática do Estabelecimento Prisional Especial de Santa Cruz do Bispo (feminino), resultando na apresentação do Museu pelas reclusas à população local, empenhando-se na divulgação das temáticas deste e encarnando elas próprias os personagens que ali o representavam – o mecânico Sr. Teixeira e a jornalista Rita Gralha. 

A abertura à comunidade local neste modelo pioneiro do Museu revelou-se como uma estratégia de indubitável valia, não só pelo cumprimento da sua missão e vocação pública mas, e para além dela, pelo enriquecimento profissional e pessoal dos seus profissionais num tecido de relações sociais, culturais e humanas que permitiu transportá-lo, sem retorno, para um mais elevado patamar de proximidade aos seus públicos.

É disso mesmo reflexo o conjunto de testemunhos com que iniciamos este breve apontamento e que integram a brochura “Viajar com o Museu”, uma pequena edição que se assumiu como o Diário de Bordo desta viagem do Museu dos Transportes e Comunicações.
________________________________________________
Faro, Suzana (coord.) – Viajar com o Museu. Porto: Museu dos Transportes e Comunicações, 2006, 1ª edição





 

Adicionar comentário

Scroll