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Novela Aduaneira V

Eça de Queirós in Correspondência de Fradique Mendes

2 de março de 2018
Chave da Cancela de Ferro do Porto Franco - Alfândega de Lisboa
Chave da Cancela de Ferro do Porto Franco - Alfândega de Lisboa
Exposição “Metamorfose de um Lugar: Museu das Alfândegas” © António Chaves Arquivo MTC
Minha querida madrinha:

“Era Lisboa e chovia. Vínhamos poucos no comboio, uns trinta talvez – gente simples, de maletas ligeiras e sacos de chita, que bem depressa atravessou a busca paternal e sonolenta da Alfândega e logo se sumiu para a cidade sob a molhada noite de Março."
"No casarão soturno, à espera das bagagens sérias, fiquei eu, o Smith e uma senhora esgroviada, de óculos no bico, envolta numa velha capa de peles. (…) Não sei quantos séculos assim esperámos, Smith imóvel, a dama e eu marchando desencontradamente e rapidamente para aquecer ao comprido do balcão de madeira, onde dois guardas de Alfândega (…) bocejavam com dignidade. Da porta do fundo, uma carreta, em que oscilava o montão da nossa bagagem, veio por fim com pachorra. A dama de nariz de cegonha reconheceu logo a sua caixa de folha-de-flandres, cuja tampa, caindo para trás, revelou aos meus olhos que observavam (…) um penteador sujo, uma boceta de doce, um livro de missa e dois ferros de frisar. O guarda enterrou o braço através destas coisas íntimas, e com um gesto clemente declarou a Alfândega satisfeita. A dama abalou.”

Eça de Queirós in Correspondência de Fradique Mendes (excerto de texto publicado na “Alfândega – Revista Aduaneira”, nº 18/19, 1989)

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