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Novela Aduaneira VI

“I like it, here”

30 de maio de 2018
Kingsley Amis in «I like it, here», publicado na Revista Aduaneira - Alfândega nº 31, 1993
Reforma e Organisação Geral das Alfândegas do Continente, do Reino e Ilhas Adjacentes; Imprensa Nacional, Lisboa 1865; Biblioteca da Alfândega do Porto In Exposição “Metamorfose de um Lugar: Museu das Alfândegas” © António Chaves Arquivo MTC
Enquanto perguntava a si próprio qual seria o equivalente português de «I don´t understand you», Bowen deslocou-se na direcção do edifício da Alfândega.
“A primeira acção digna de nota em solo estrangeiro, foi uma demonstração em grande escala de como puxar expectoração e cuspir, feita por um encantador cavalheiro de meia-idade, muito bem vestido. As duas partes do processo duraram bastante tempo e foram muito ruidosas. Garnet Bowen sentiu-se suficientemente animado para dizer para consigo: «Meu Deus, estou no estrangeiro. No estrangeiro. E esta, ahn?.

Todos os funcionários da Alfândega eram homens de aspecto distinto, com uniformes de alpaca cinzenta, com um ar (e ao mesmo tempo uma sugestão) de virtude ofendida, como generais despromovidos que voltassem ao princípio da carreira. Aquele que calhou a Bowen sentia de forma visível a sua despromoção, mas entre os dois em breve desenvolveram um patois anglo-franco-português o qual, complementado com um pouco de latim por parte de Bowen, serviu os seus objectivos. Bowen pagou ao bagageiro, não sem antes rebuscar toda a área do cais à procura de troco. Deu gorjeta ao bagageiro, uma porção daquelas coisas que davam pelo nome de escudo equivalente a, segundo pensava, três xelins. O bagageiro tirou o chapéu e fez uma vénia. Bowen descobrira mais tarde que não se tratava de mera cortesia lusitana (embora em parte também fosse isso), mas também de gratidão, já que um escudo (três dinheiros) era a gorjeta habitual. Na verdade – disseram mais tarde a Bowen – teria sido mais do que suficiente, de acordo com os ordenados das classes trabalhadoras; dar mais contribuiria para estragar o mercado.”

Kingsley Amis in «I like it, here», publicado na Revista Aduaneira - Alfândega nº 31, 1993

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