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Novela Aduaneira VIII

Infância Aduaneira do Sobrinho da Titi – parte II

7 de dezembro de 2018
Conjunto de soldados de chumbo
Conjunto de soldados de chumbo, pintados, representativos dos uniformes da Guarda Fiscal 1886 – Alfândega de Lisboa, in Exposição “Metamorfose de um Lugar: Museu das Alfândegas” © António Chaves Arquivo MTC
“O papá começou a frequentar o Mosteiro. Um guarda da Alfândega levava-lhe o violão, e enquanto o comendador e outro amigo da casa, o Margaride, doutor delegado, se embebiam numa partida de gamão, e D. Maria do Patrocínio rezava em cima do terço – o papá, na varanda, ao lado de D. Rosa, defronte da Lua, redonda e branca sobre o rio, fazia gemer no silêncio os bordões e dizia as tristezas do conde Ordonho.
Outras vezes jogava ele uma partida de gamão: D. Rosa sentava-se então ao pé da titi, com uma flor nos cabelos, um livro caído no regaço; e o papá chocalhando os dados, sentia a carícia prometedora dos seus olhos pestanudos.

Casaram. Eu nasci numa tarde de Sexta-Feira de Paixão; e a mamã morreu, ao estalarem, na manhã alegre, os foguetes da Aleluia. Depois, numa noite de Entrudo, o papá morreu de repente, com uma apoplexia, ao descer a escadaria de pedra da nossa casa, mascarado de urso, para ir ao baile das senhoras Macedos.

Eu fazia então sete anos. No quarto de engomar, a minha criada Gervásia sentou-me no chão, embrulhado num saiote. De quando em quando, rangiam no corredor as botas do João, guarda da Alfândega, que andava a defumar com alfazema.

Passados dias, acordaram-me, numa madrugada em que a janela do meu quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenúncio de coisa santa. Ao lado da cama, um sujeito risonho e gordo fazia-me cócegas nos pés com ternura e chamava-me «brejeirote». A Gervásia disse-me que era o Sr. Matias, que me ia levar para muito longe, para casa da tia Patrocínio: e o Sr. Matias, com a sua pitada suspensa, olhava espantado para as meias rotas que me calçara a Gervásia. Embrulharam-me no xale-manta cinzento do papá; o João, guarda da Alfândega, trouxe-me ao colo até à porta da rua, onde estava uma liteira com cortinas de oleado.

Começámos então a caminhar por compridas estradas…”

Eça de Queirós, in «A Relíquia» - excerto publicado na ALFÂNDEGA Revista Aduaneira nº 34 1994

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