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Novela Aduaneira

Episódio 2

2017-06-05
Dinamómetro (aparelho de medição de peso e massa). Coleção Aduaneira | © António Chaves - Arquivo AMTC
Dinamómetro (aparelho de medição de peso e massa). Coleção Aduaneira | © António Chaves - Arquivo AMTC
De regresso à minha gente

Nas vésperas do Natal de 1983, após treze anos de ausência, regressei à minha terra. A bagagem que trazia incluía mala enorme, metálica, pesada, que despertou naturalmente a curiosidade do guarda da alfândega.
Chamou-me de lado e mandou-me que a abrisse.
Dela saíram dúzias de instrumentos dos mais diversos feitios: de alicates brutais, aptos a roerem o osso mais duro, a ferros tão delicados que mais pareciam forjados para trabalho de relojoaria. Tudo foi o guarda alinhando na bancada até pronunciar a sentença: «Isto vai pagar muitos direitos».
Expliquei-lhe que aqueles eram os instrumentos do meu trabalho – a minha enxada, o meu violino.
O aspecto suspeito daqueles utensílios, ou talvez a inquietação que as metáforas sempre causam à autoridade, conduziram-no à única decisão sensata em tais circunstâncias: «Vou ter que chamar o chefe!»
O chefe lá veio, saudando-me logo de braços abertos: «Bem-vindo a Portugal. Já sabia que estava para chegar».

Explicou-me: «É que eu além de aduaneiro sou também psicólogo no Hospital Miguel Bombarda». 
Entretanto, o guarda apressava-se a recolher a mercadoria suspeita. Fechou a mala e disse-me: «Senhor professor, queria pedir-lhe o favor de me ver um sobrinhito que eu tenho com um problema na vista».
Compreendi então que, além de ter chegado à minha terra, tinha chegado à minha gente.


Antunes, João Lobo. (1997). De regresso à minha gente. ALFÂNDEGA - Revista Aduaneira. nº 43,  p.43.

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