Em 1955 estreava-se no IV Rali do Porto o Marlei. Com um peso de 500 kg e atingindo uma velocidade máxima de 170 kms/hora, o Marlei percorria nesta sua primeira competição um total de 183 kms, com início e término no Porto e passagem por Braga, Barcelos e Viana do Castelo. Terminava a prova causando boa impressão, alcançando a 2ª posição da 1ª classe do Grupo B, demorando 1 hora, 33 minutos e 75 segundos a completar o circuito.
Mas que viatura invulgar era este Marlei?
Recuemos um pouco mais atrás no tempo. No início dos anos 50 deu entrada na garagem da General Motors, em Vila Nova de Gaia, um Opel Olympia Caravan acidentada, totalmente destruído. À época, era chefe dos mecânicos na oficina Mário Moreira Leite, um exímio e criativo mecânico que dedicou as suas horas vagas ao desafio de construir, a partir deste destroço, um novo automóvel. Aproveitando a plataforma e as suspensões do Opel, fez uma estrutura em tubos e painéis de aço soldados. O motor e a direção também eram Opel, enquanto a transmissão e o bloco de travagem eram Vauxhall. A carroçaria estampada à mão, foi construída em alumínio e pesava apenas 45 kg. A maior intervenção mecânica realizou-se, contudo, no motor e na caixa de velocidades e no diferencial para possibilitar ganhar mais quilómetros.
Nascia assim o Marlei, um novo automóvel construído à medida do seu autor e batizado por inspiração no seu nome - Mário Leite.
Para Mário Leite era apenas mais um desafio: “Olhe, eu cacei, pesquei, fui piloto de aviação civil,… construir o Marlei foi mais uma válvula de escape como outra qualquer. Sempre gostei de desafios, de resolver coisas difíceis… e valeu o esforço, o carro ficou fantástico! Era impossível virá-lo!”
Em maio de 2014 comemora-se o centenário do nascimento de Mário Moreira Leite. Com 18 anos (a 10 de fevereiro de 1933), obteve a carta de condução e conduziu, sem ter qualquer acidente de viação, até 2002. Há época em que se estreou ao volante, refere, “Só havia 5 sinais de código e podia-se circular em todas as direções, exceto na Rua de Cedofeita por causa dos engarrafamentos”… de carros de bois.
O Marlei destacou-se no mundo do fabrico de automóveis em Portugal, mundo este que nunca constituiu, no entanto, uma atividade de grande relevo. Contudo, a partir da década de 30 e até ao final do século XX o Porto afirma-se com algum sucesso nesta matéria. Eduardo Ferreirinha idealiza e constrói um veículo de competição com base na mecânica Ford – o Edford – apresentado no Salão Automóvel do Porto em 1937. O fervor pelo desporto automóvel vem depois dar origem à transformação de vários automóveis de competição: para além do Marlei, o DM de Dionísio Mateu e Elísio de Melo; o Alba; o Olda, o FAP e o Etnerap de António Augusto Parente... num total de cerca de três dezenas de exemplares. Na década de 1950, a Fábrica de Produtos Estrela desenvolve projetos para a produção de automóveis populares e de competição, bem como carrocerias de autocarros, mas apenas estes dois últimos virão a ser construídos. Posteriormente entre os anos 70 e 80 vão ainda ter lugar algumas experiências de produção em série, como a União Metalo Mecânica (UMM), a Portaro ou a Sado.
Texto elaborado a partir de:
RODRIGUES, José Barros - Marlei: o sonho de um artífice. Porto: Museu dos Transportes e Comunicações, 2002. 61, [1] p. ISBN 972-8095-92-9.
MELO, Alexandra; ALVES, Carla Coimbra – Marlei: um automóvel Português: Mário Moreira Leite em entrevista. Jornal do Museu dos Transportes e Comunicações. Porto: Museu dos Transportes e Comunicações. ISSN 1645-6386. n.º 1 (outono 2002), p. 4-5.
O MARLEI pode ser visto no Museu dos Transportes e Comunicações – Alfândega do Porto, na exposição “O Automóvel no Espaço e no Tempo”.
Artigo publicado no Jornal online "Porto 24", em 02.06.2014 - http://www.porto24.pt/memoria/marlei-um-carro-unico/