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Novela Aduaneira XVII

A fronteira de Campo Maior

20 de outubro de 2021
Crachat em metal utilizado nos uniformes aduaneiros. Coleção Aduaneira na exposição “Metamorfose de um Lugar: Museu das Alfândegas” © Arquivo AMTC
“Abrandamos, e paramos. O motorista continua a olhar para a frente, com as duas mãos no volante. Continuamos cingidos pelos cintos de segurança. Rodo a manivela do vidro da janela, acendo um cigarro, mais um. Tudo normal, os primeiros carros da caravana chegaram à linha de fronteira. Sopro fumo do cigarro no céu, dissolve-se no cinzento.
Sempre a papelada, é preciso comparar a fotografia dos documentos com o rosto espavorido dos homens que têm à sua frente. Atiro a ponta do cigarro para longe, a brasa quase no filtro. A passagem da fronteira deveria ser lesta, estamos ainda no lado português, mais difícil deveria ser a entrada em Espanha. Ouço vozes já com um tom exaltado, tiro o cinto de segurança, abro a porta, vou ver o que se passa. (…) As vozes aumentam de volume a cada passada.

Encontro o diretor da alfândega em disputa com três homens de gravata, dois portugueses e um espanhol a tentar perceber o que se passa. O diretor diz-me: ainda bem que o senhor aí vem. E explica-me que há povo infiltrado na comitiva, que há trânsito ilícito de produtos, que não pode permitir essa passagem.”

Excertos de “Almoço de Domingo”, de José Luís Peixoto, Quetzal Editores, 2021, 4ª edição, pág. 135-136

Fotografia: Crachat em metal utilizado nos uniformes aduaneiros. Coleção Aduaneira na exposição “Metamorfose de um Lugar: Museu das Alfândegas” © Arquivo AMTC

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