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Novela Aduaneira XVIII

Um Cigarro Filosófico-Aduaneiro

28 de dezembro de 2021
Boné em fazenda com insígnia e pala plástica utilizado pelos caregadores dos armazéns das Alfândegas (até 1974) e pelos funcionários do tráfego. Coleção Aduaneira na exposição “Metamorfose de um Lugar: Museu das Alfândegas” © Arquivo AMTC
“… e reclamei uma tipóia. O carregador atirou a jaleca para cima da cabeça, saiu ao largo e recolheu logo anunciando com melancolia que não havia tipóias.
- Não há! Essa é curiosa! Então como saem daqui os passageiros?
O homem encolheu os ombros. «Às vezes havia, outras vezes não havia, era conforme calhava a sorte…» Fiz reluzir uma placa de cinco tostões, e supliquei àquele benemérito que corresse às vizinhanças da estação, à cata dum veículo qualquer com rodas, coche ou carroça, que me levasse ao aconchego dum caldo e dum lar. O homem largou, resmungando. E eu logo, como patriota descontente, censurei (voltado para o capataz e para o homem da Alfândega) a irregularidade daquele serviço. Em todas as estações do mundo, mesmo em Tunes, mesmo na Romélia, havia, à chegada dos comboios, ónibus, carros, carretas, para transportar gente e bagagem… Porque não as havia em Lisboa? Eis um abominável serviço que desonrava a nação!

O aduaneiro esboçou um movimento de desalento, como na plena consciência de que todos os serviços eram abomináveis, e a pátria toda uma irreparável desordem. Depois, para se consolar, puxou com delícia o lume ao cigarro.”

Eça de Queirós, Correspondência de Fradique Mendes, excerto publicado na ALFÂNDEGA Revista Aduaneira.

Fotografia: Boné em fazenda com insígnia e pala plástica utilizado pelos caregadores dos armazéns das Alfândegas (até 1974) e pelos funcionários do tráfego. Coleção Aduaneira na exposição “Metamorfose de um Lugar: Museu das Alfândegas” © Arquivo AMTC

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