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O Contrabando

Novela Aduaneira X

5 de setembro de 2019
“Viola” de contrabando de azeite, utilizada entre Portugal e Espanha durante a II Guerra Mundial, apreendida pelos serviços aduaneiros. Alfândega do Porto, in Exposição “Metamorfose de um Lugar: Museu das Alfândegas” © Arquivo MTC
“Viola” de contrabando de azeite, utilizada entre Portugal e Espanha durante a II Guerra Mundial, apreendida pelos serviços aduaneiros. Alfândega do Porto, in Exposição “Metamorfose de um Lugar: Museu das Alfândegas” © Arquivo MTC
“O contrabando, o contrabando inofensivo – esse desporto admirável, emocionante e sedutor – continua. Não há nada que chegue a um pequeno sobressalto aduaneiro! Sobretudo no aeroporto, onde os amáveis e poliglotas doutores que presidem, elegantemente, a essa obstetrícia internacional têm, mercê, duma cultura e duma superioridade realmente raras, o sentido perfeito de que as Alfândegas são o sorriso dos países. (…)
Psicólogos, «experts» de modas, filósofos e espectadores da vida, estes funcionários, se têm uma missão fiscal e financeira, não deixam de ter uma outra – diplomática e turística. (…)

É claro que é feio uma linda mulher trazer seis casacos de «vison» ao mesmo tempo, ou qualquer homem elegante transportar dez frascos de perfume caro, por abrir. Uma longa e estudada técnica os fará distribuir na bagagem, com sábia dissimulação. Mas, aí, o esperto olho e mesmo o nariz do doutor intervêm no diagnóstico. Vai longe o tempo em que uma dama barafustava nas nossas fronteiras por lhe não consentirem na bagagem umas calças pardas: «Só roupa de seu uso» - diziam as honestíssimas pautas do tempo de el-rei D. Pedro V. Hoje, quantos pares de calças e de cuecas constituem a bagagem de uma «vedeta» de cinema? Quantos pacotes de cigarros? Quantos «jerseys» sem sexo? Por isso o doutor da Portela de Sacavém conhece a moda do último «magazine». Por isso ele cheira e compreende logo se a dama é de contrabando. Por isso apreende, em vez dos artigos – o que seria antiquado -, a verdade, que é mais difícil e mais subtil. E cobra, mesmo, os direitos ao nosso respeito pelo seu equilíbrio e segurança, nessa bela sorte de prestidigitação que é a verificação alfandegária – sorte que, se não faz sair coelhos e pombos de chapéus altos, sabe perfeitamente onde está o gato e obriga, às vezes, a bater secretamente um coraçãozinho que devia estar tranquilamente adormecido sob um intacto corte de seda pura, - três metros e meio com ourela.”

Leitão de Barros in “Os Corvos”, excerto publicado na ALFÂNDEGA Revista Aduaneira s/d

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